terça-feira, 19 de março de 2013
Em Soure com as "Histórias assim e a sério"
Histórias assim e a sério foram lidas e contadas pelos alunos de 4.º e 5.º anos do Agrupamento de Escolas de Soure. A cabra foi o conto selecionado para trabalho na aula, tendo sido "desenhados" vários e bonitos retratos da Branquinha, a traço e com palavras.
Para além de muitas perguntas de leitores curiosos, Rimar e Cantarolar também marcou presença, nesta sessão e na aula, como se pôde ver pelos trabalhos dos alunos afixados na biblioteca.
Havendo uma princesa encantada num dos meus livros, não me dispensaram da leitura da sua história. Terminámos, assim, com a leitura d'A Bicha Moira.
Em conversa com as professoras do 4.º ano, ficaram ainda algumas sugestões de atividades a partir do livro Rimar e Cantarolar.
Lendo poesia em Póvoa de Lanhoso
No dia 12 de março, passei o dia com os meus pequenos leitores do concelho de Póvoa de Lanhoso, participando em atividades integradas na Semana da Leitura. De manhã, estive na EB 2/3 de Taíde. Começámos pelos meus poemas incluídos na antologia Versos de não sei quê, que já tinham sido trabalhados na aula.
Por isso, houve quem lesse...
...quem recitasse...
...e quem tocasse e cantasse o Poema às Cores, com arranjo musical do professor Carlos.
Também lemos e cantámos alguns textos do Rimar e Cantarolar e, a pedido de muitos dos participantes, contei a história da princesa encantada que mora no livro d'A Bicha Moira. Para O Diabo do Alfusqueiro não houve tempo, mas ficou o livro e uma grande vontade de o ler.
A tarde foi dedicada à EB 1 de Porto de Ave - Taíde. Depois de os alunos terem apresentado os seus trabalhos, realizados também a partir da leitura dos Versos de não sei quê, passámos ao Rimar e Cantarolar. Cantámos e recriámos algumas rimas e foi muito bom ver o entusiasmo com que toda a "assembleia" participou nos jogos poéticos à volta do texto Indo eu.
O momento alto da sessão teve lugar quando um grupo de alunos apresentou um trabalho realizado a partir do poema A gaveta. Havia uma gaveta "a sério", feita pelos alunos a partir de material reciclado, que me foi entregue cheia de recordações. Não faltou a t-shirt autografada, desta vez pelos alunos das turmas presentes. Foi muito, muito bom.
Foi um dia "cheio de poesia" que muito ficou a dever ao trabalho realizado pelos professores envolvidos. Senti-me "em casa" e julgo que ajudei a fazer crescer a vontade de ler e de "jogar com palavras".
quarta-feira, 13 de março de 2013
Bichos por palavras
Era uma vez uma turma que gostava muito de animais. E queria escrever... Nada mais fácil: numa manhã de Fevereiro, juntámo-nos e escolhemos os bichos a "retratar": um gafanhoto e um cavalo-marinho.
Foram estes os textos escritos pelo 5.º H da EB 2/3 Fernando Caldeira:
Consta que anda por lá um Pinguim Valentim a pedir para ser escrito. Fico à espera de conhecê-lo para o colocar aqui a fazer companhia a estes dois.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Toda a POESIA é LUMINOSA
Vai ser já no próximo sábado que a POESIA vai iluminar a Biblioteca Municipal de Ílhavo.
Eu vou estar lá. APAREÇAM!
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
"A Bicha Moira" apresentada na FNAC
Foi assim no passado sábado, na FNAC do Gaiashopping.
Um grupo de pequenos artistas fez a encenação da leitura da história da princesa-serpente que, há séculos, chora lágrimas sentidas pela bica de uma fonte, à espera de quem lhe quebre o encanto.
Depois da leitura, o mesmo grupo deu asas à imaginação e recriou a história. E podem crer que revelaram grande capacidade criativa!...
Troca de impressões com a "princesa", no final da atuação.
Texto de apresentação d' "A Bicha Moira"
A Bicha Moira é uma das poucas lendas do imaginário aguedense que chegaram aos nossos dias. Inscreve-se esta lenda num corpus de narrativas com origem nos mitos das mouras encantadas, cuja origem remonta à pré-história e que, no seu percurso ao longo dos séculos, foram anexando elementos dominantes de cada época, num processo contínuo de transformação e de contextualização.
Fernanda Frazão e Gabriela Morais (in Portugal, Mundo dos Mortos e da Mouras Encantadas, ed. Apenas Livros, 2009) consideram que as mouras serão vestígios visíveis das mais antigas histórias da Humanidade que, pela sua longa cronologia, se inscreveram no nosso inconsciente coletivo. Estas lendas “guardam as memórias mais antigas dos nossos antepassados” e, apesar da contextualização que foram sofrendo na travessia de séculos, “não perderam o seu núcleo duro, revelador dessa antiguidade”. É, portanto, neste núcleo duro que se inscrevem as “bichas” ou “cobras mouras” que habitam as fontes, as grutas, as minas, os poços, as correntes de água que brotam do interior da terra, as raízes das árvores, enfim ... a Mourama – o mundo subterrâneo, o mundo dos mortos para os celtas. Referem ainda estas autoras que, atualmente, se considera que o termo moura / mouro terá como base o termo celta *mrvos – cujo significado é «morto» ou «ser sobrenatural». Seguindo a mesma linha de pensamento, Consiglieri Pedroso (in Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa, Pub. Dom Quixote, Lisboa,1988) considera que “ as mouras encantadas eram divindades ou génios femininos das águas, análogas às nixen germânicas, às lac-ladies inglesas, às rusalki russas, às elfen esdandinavas, às náiades gregas, etc. Eram também, além disso, os génios que guardavam os tesouros escondidos no centro da terra, crença que é comum a todos os povos, que conservaram vestígios desta entidade mítica, que parece ser indo-europeia ou pelo menos europeia, por isso se encontra, quase sem exceção, em todos os grupos áricos da Europa. Apenas da mitologia portuguesa desapareceu a feição maléfica que estas entidades por vezes revestem em outras mitologias.”
Cosiderando o processo diacrónico de adaptação / contextualização atrás referido, é curioso verificar o comportamento do mito das “cobras” ou “bichas mouras”, ao atravessarem os períodos da romanização e da islamização: o facto de a palavra Mourama – o subterrâneo reino dos mortos – se confundir com a Mourama, terra de mouros, terra de Sarracenos veio a desencadear uma espécie de “aculturação” destes mitos, confundindo / relacionando as “bichas moiras” com as princesas mouras. A época da Reconquista foi terreno fértil para a “transfiguração” dos anteriores mitos, que sobreviveram sobretudo em meios rurais, nas belíssimas lendas das princesas encantadas, geralmente em consequência de amores impossíveis entre mouros e cristãos.
Passemos, então, a situar a lenda da Bicha Moira, versão aguedense, neste contexto:
Fernanda Frazão e Gabriela Morais dizem-nos que o conhecimento destes mitos vem até nós através de “rumores” – diz-se que nesta fonte...; conta-se que há uma cobra... –. A partir destes rumores conseguimos recolher o que as mesmas autoras chamam, à semelhança da Arqueologia, os “cacos” do mito.
Tendo em conta as considerações feitas atrás, quais foram, então, os “cacos” do mito, e também outras fontes, que me permitiram reconstituir e recriar a minha versão da lenda d’A Bicha Moira?
Os “rumores” já pouco nos dizem. Se perguntarmos aos aguedenses o que sabem acerca desta história, já são poucos os que nos dão uma resposta, por vaga que seja, e menos ainda os que tecem uma narrativa com encadeamento lógico. Por estranho que pareça, há mesmo poucos que saibam onde ficam a encosta e a travessa da Bicha Moira e a fonte que lhes deu o nome. O que ficamos então a saber, escutando os rumores possíveis? Diz-se....
...que uma princesa foi transformada em cobra por causa de amores proibidos;
... que a cobra vive numa gruta de onde brota uma fonte, a fonte da Bicha Moira;
... que são as suas lágrimas que alimentam a fonte;
.... que a princesa só poderá ser desencantada por um jovem que, na noite de S. João, entre na gruta de onde brota a fonte e tenha a coragem de beijar a cobra para que esta retorme ao seu corpo de princesa.
... que todo o forasteiro que beber água da fonte do Botaréu ficará em Águeda para sempre.
São estes os “cacos” do mito que persistem nos “rumores”.
Há, no entanto, algumas fontes escritas datadas de finais do séc. XIX / início de séc. XX:
1. A Bicha Moira em Duas Noites de S. João, de José Maria Vellozo – um extenso e sobrecarregado poema, escrito em 1847, em circunstâncias muito curiosas, e publicado em 1871 no semanário Escola Popular (n.ºs 36 a 49). Com efeito, na época em que o poema foi escrito, os aguedenses tinham como dado adquirido o facto de Águeda ter a sua origem em ÆMINIUM, importante cidade romana situada por Plínio entre os rios Vouga e Mondego. Ora, José Maria Vellozo, denotando algum desgosto pelo facto de, em Águeda, não ter sido descoberto qualquer vestígio arqueológico da importante cidade romana, encontra na Lenda da Bicha Moira o único vestígio do passado capaz de reerguer a grandeza perdida da velha ÆMINIUM e, portanto, de Águeda. Escreve, então, um extenso e intrincado poema, transformando a singela e tocante história da princesa num texto carregado de erudição histórica, que lhe rouba a leveza e o encanto. As circunstâncias em que foi escrito, as características poéticas e o complicado enredo da narrativa, tudo leva a crer que o texto de Vellozo não tenha sido fruto da recolha de narrativas orais ou dos tais “rumores” que, ao tempo, possivelmente terão circulado ainda com algum vigor. Inclusivamente, é Vellozo que dá o nome à princesa – Zulcide –, facto confirmado por Adolfo Portela.
Este poema vale, a meu ver, pelo facto de ter chamado a atenção para esta lenda, despertando a população para a sua existência, impedindo talvez o seu esquecimento tal como aconteceu com as lendas d’A Mesa dos Mouros e d’A galinha com porquinhos e a porca com pintainhos que, já Adolfo Portela, no seu livro “Águeda”, referiu como irrecuperáveis.
2. Tese de licenciatura em Medicina do dr. António da Costa Ferreira, intulada Águas do Botaréu, apresentada em 1903. Perguntar-se-á o que faz uma lenda de uma moura encantada numa tese de Medicina. O facto é que, com esta tese, pretendia o seu autor provar as qualidades terapêuticas e termais das águas do Cais do Botaréu onde, até há relativamente pouco tempo, o povo tomava o banho santo na noite de S. João, na esperança de cura para muitos males. Partindo desta constatação, o dr. António da Costa Ferreira investiga as qualidades da água, tendo descrito no seu trabalho uma interressante rede de pequenos ribeiros e regatos, hoje inexistentes, mas que, ao tempo, desaguavam no Ribeirinho que, por sua vez, os lançava no rio Águeda, chegando as suas águas até ao Cais do Botaréu. Ora, um destes ribeiros, o Nancrias, tinha a sua origem na Gruta da Fada, sendo a fonte da Bicha Moira a sua nascente. Daí a integração da lenda num trabalho que se julgaria exclusivamente objetivo e científico.
Por este trabalho ficamos a saber da existência da Gruta da Fada – terá sido uma Fada que encantou a princesa – e das águas milagrosas que correm da fonte até ao Botaréu, onde o povo mergulhava em noites de S.João para a cura de maleitas.
3. Foi em Adolfo Portela que encontrei a relação entre a água da fonte – lágrimas da princesa que, “namorada d'uns olhos christãos, chora toda a tragedia do seu encantamento” –, e a água do Botaréu, que, nas suas palavras, “é como um filtro de veneno doce que enfeitiça a alma de quem a prova” e, ainda, que tem “a virtude extranha de enfeitiçar quem a bebe. E esse feitiço, pelos modos, leva a gente, por mais indifférente que vá passando em terras d'Agueda, a prender-se a ella sem nunca mais poder mudar de pátria.”
É também em Adolfo Portela que encontramos ecos de “rumores” perdidos: as lágrimas da princesa “não quebrarão jamais o rosário d'oiro e prata que vão fiando por esse oiteiro abaixo; que esse oiro e essa prata, com todo o feitiço que trazem dos olhos maguados de Zulcide, hão de confundir-se sempre nas aguas do Ribeirinho; e que estas aguas, por fim, ao termo da sua curta jornada entre ribas macias, hão-de juntar-se todas, como agora se juntam, no romântico portinho do Botareu.”. E é porque as lágrimas da princesa “desfiam” ouro e prata que Adolfo Portela recolhe do cancioneiro ribeirinho a canção:
Vou encher a infuza doiro
nas aguas do Botareu.
Andes lá por onde andares
o teu peito ha-de ser meu!
Prendi-me na silva verde
mas alguém me desprendeu.
Outro tanto já não digo
das aguas do Botareu.
Poderemos, então, relacionar o rosário de ouro e prata e a infuza doiro, aqui presentes, com as cifras de ouro referidas no poema de Vellozo que a princesa lançava nas águas do regato, explicando em código o segredo do seu desencantamento. Estes “cacos” do mito remetem-nos para os atrás referidos mitos das “bichas” ou “cobras mouras”, que, desde a pré-história, guardariam tesouros escondidos no interior da terra.
Fazendo o estudo comparativo da lenda aguedense com as inúmeras lendas de bichas moiras que povoam o país, com particular incidência no Norte, verifica-se que não se afasta da matriz narrativa das mesmas. É a associação das duas fontes e o feitiço das águas do Botaréu que a situam no contexto aguedense, dando-lhe forma local.
Foi articulando e reorganizando estes “fragmentos” da história que construí a minha versão da lenda d’ A Bicha Moira. Para que a lenda não se vá delindo (termo de Adolfo Portela) com o correr do tempo, decidi partilhá-la em livro com todos os aguedenses amantes do seu património. Será uma maneira de, todos juntos, irmos passando a lenda à frente, na esperança de que nunca se perca.
Nota: Foi respeitada a ortografia das fontes escritas.
Maria da Conceição Sousa Vicente
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